O incêndio na Cinemateca Brasileira: o projeto de destruição da cultura e da memória nacional
Reportagem da Semana
6 de agosto de 2021
Imprensa ADUR-RJ
Por Larissa Guedes

O incêndio que queimou 60 anos de história do audiovisual brasileiro. Imagem: Reprodução Correio Braziliense.
No dia 29 de julho, um depósito da Cinemateca Brasileira, localizada na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, pegou fogo. No local, ficavam armazenados materiais como rolos de filmes, documentos impressos e equipamentos museológicos, que podem ser altamente inflamáveis.
Segundo o Corpo dos Bombeiros, o fogo teve início após a manutenção de um aparelho de ar-condicionado localizado em uma das salas da Cinemateca, a mais antiga na área cinematográfica na América Latina. Não houve vítimas, mas o incêndio representou uma perda irreparável de materiais e registros históricos do audiovisual brasileiro. Os mesmos peritos que atuaram na investigação do incêndio no Museu Nacional da UFRJ, em 2018, vão ser responsáveis por apurar o caso da Cinemateca.
O ocorrido gerou revolta e indignação em artistas, pesquisadores e funcionários da instituição que já vinham alertando o governo federal sobre os riscos de incêndio na Cinemateca há mais de um ano. Os profissionais apontavam para os perigos por conta da precariedade das condições de preservação do local e dos materiais do acervo, uma vez que a instituição vem sofrendo há anos um enorme descaso por parte do Estado, com escassez de investimentos e recursos financeiros.
Durante o incêndio na Cinemateca, o secretário da Cultura do governo Bolsonaro, o ex-ator Mário Frias, estava em viagem para a Europa, participando do encontro de ministros da cultura da cúpula do G-20. Antes dele, ainda em maio de 2020, Bolsonaro havia anunciado que a responsável pela Cinemateca seria a atriz Regina Duarte, logo após demiti-la da função de secretária da Cultura. A atriz, no entanto, nunca assumiu o cargo.

O atual secretário da cultura do governo federal e ator fracassado, Mário Frias, e o presidente Jair Bolsonaro. Imagem: Reprodução Sputnik Brasil.
Para o professor do curso de Belas Artes da UFRRJ, Alexandre Guedes, o desmonte do Ministério da Cultura, que foi transformado em uma secretaria ligada ao Ministério do Turismo, faz parte de um projeto político de desmonte do Estado. “Isso tudo faz parte de um projeto que foi intensificado neste momento porque não há interesse na manutenção ou na disseminação de uma identidade nacional que não atende à demanda local das elites e nem muito menos daquilo que a gente pode chamar de poder central, que é a governança fortemente presente em nosso território dos Estados Unidos, ou seja, do imperialismo”, afirma ele.
Em julho de 2020, a União foi processada pelo Ministério Público Federal por abandonar o cuidado com o acervo da Cinemateca, mas o andamento do processo foi suspenso após um acordo judicial no qual o governo se comprometeu a tomar providências. O acordo determinava que o governo publicaria um edital para escolher uma entidade privada para gerir o órgão. O prazo para a publicação venceu no final de junho de 2021 e o edital não havia sido lançado ainda.
Somente após o incêndio, no dia 30 de julho de 2021, o governo federal publicou o edital de chamamento público para escolher uma entidade privada para administrar o órgão pelos próximos cinco anos. De acordo com o documento, o novo prazo para escolha deverá ser até o dia 21 de outubro de 2021.
A professora de Antropologia Social do curso de Ciências Sociais da UFRRJ, Patricia Reinheimer, aponta que além do apreço escasso que a sociedade brasileira direciona para a arte e a cultura, também existem outros fatores envolvidos, como interesses econômicos, alinhados à destruição da memória nacional. “(…) Como se não bastasse o descaso para destruir a força de nossos ancestrais pelo fogo, a desvalorização da memória deu lugar a um projeto ultraneoliberal de privatização e mercantilização da vida. Já não se trata mais de pensar se o fogo é projeto político ou não, mas de perceber como o incêndio abre espaço para o surgimento imediato de mais projetos de concessão ao capital privado e à exploração comercial de riquezas – materiais e imateriais – que são o sustentáculo da soberania dos povos. A necropolítica não se contenta em matar corpos, ela mata memórias, sonhos, desejos”, declara a docente.
Perdas históricas e culturais brasileiras: um projeto político
O caso da Cinemateca é um dos muitos exemplos de instituições culturais, artísticas e científicas brasileiras que sofrem as consequências do descaso do poder público. No passado recente, o Brasil passou por uma série de perdas estruturais de instituições históricas causadas incêndios: o Teatro Cultura Artística pegou fogo por mais de 4 horas em 2008; o Palácio Universitário da UFRJ, em 2011; o Memorial da América Latina em 2013; o Museu da Língua Portuguesa, em 2015; o Museu Nacional da UFRJ, em 2018; o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG em 2020.
Para a professora Patrícia Reinheimer, “cada incêndio destrói assim uma riqueza incontável em números. Não se trata (apenas) de valor material. Trata-se da história de grupos inteiros, das relações através das quais o país foi se construindo, com todas as suas nuances que poderiam ser reinterpretadas à luz de novas perspectivas, mas foram silenciadas pelo fogo e pelo descaso.”
No caso da Cinemateca, a história do audiovisual brasileiro foi a grande atingida. O professor Alexandre acredita que “o audiovisual é algo estratégico não só para a manutenção da identidade visual de uma sociedade, mas também para a sua expansão, para lembrar as pessoas quem elas são, onde elas vivem, como elas produzem em todos os níveis, como elas se relacionam, o que elas podem fazer, qual o papel delas no mundo, o que elas querem ou queriam para esse mundo”.
Em 2020, funcionários da entidade e profissionais se reuniram várias vezes para protestar e denunciar a crise vivida pela Cinemateca que já sofria com os riscos de incêndio, demissões, falta de segurança e vigilância local e atrasos na conta de energia elétrica. As mobilizações, organizadas pelo “Movimento SOS Cinemateca”, denunciavam que a situação era a mais grave desde a fundação do órgão, em 1946. Sem salários desde abril de 2020, os funcionários estavam em greve e as contas também estavam atrasadas há meses.
O professor Alexandre argumenta que a oposição frontal à arte indica que aquilo que nós somos hoje é produto de um processo contínuo de desconstrução do Brasil. “O descaso desse governo com a cultura não vai passar uma borracha no passado, mas ele macula o presente e coloca dúvidas sobre o futuro. Para o establishment essa situação é muito bem-vinda, porque abre mais as fronteiras para o mercado consumidor de países que querem não apenas vender sabão em pó e carros, mas querem nos impor o pior da sua produção cultural para nos manter nivelados por baixo e impedir o desenvolvimento do nosso espírito crítico e, por conseguinte, dos países que estão submetidos a essa égide”, conclui o docente.
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