Se fosse uma ópera – Turandot, de Giacomo Puccini, por exemplo –, a crise ética que paralisa o governo Lula estaria naquele estágio em que os personagens menores já cantaram e toda a expectativa se concentra sobre o príncipe-tenor e sua ária definidora do enredo: "Dilegua, o notte! / Tramontate, stelle! / Tramontate, stelle! / All'alba vincerò! Vincerò!" ("Dissolva-se, ó noite! / Ponham-se, estrelas! / Ponham-se, estrelas! / Ao raiar do dia vencerei! Vencerei!"). Bem, sendo mais realista, a crise não tem a dinâmica de uma ópera. Lula a está conduzindo mais ao ritmo de cerveja e samba de seu ídolo Zeca Pagodinho: "Confesso que sou de origem pobre / Mas meu coração é nobre, / foi assim que Deus me fez / E deixa a vida me levar / Vida leva eu / E deixa a vida me levar". Se Lula continuar deixando, a vida vai levá-lo aonde ele não quer ir. E aonde ninguém quer que ele vá. Mas paciência tem limite, como desabafou um dos mais comedidos opositores do governo, Tasso Jereissati, senador do PSDB cearense: "O presidente está abusando da paciência ao fingir que não sabia de nada e ao adotar esse discurso de que os fatos são criados por uma oposição ressentida e pela imprensa. Exigimos que ele assuma sua responsabilidade. Assuma o papel de chefe. Chega de fingir que não sabe de nada, presidente! Chega de farsa!" Nos últimos dias, dois movimentos trouxeram a crise para ainda mais perto do presidente. Nas ruas voltaram a aparecer bandeiras, pichações e rostos de jovens pintados com as cores verde e amarelo, aquelas duas pinceladas paralelas que tanto simbolismo carregam na vida política nacional recente. Foram em 1984 o emblema do movimento diretas já, pela volta da eleição direta para presidente. Seis anos mais tarde, o símbolo foi apropriado por Fernando Collor em sua vitoriosa campanha presidencial. Em 1992, as ruas se encheram de estudantes caras-pintadas com o mesmo emblema bicolor, dessa vez em repúdio a Collor e suas manobras. As pinceladas verde-amarelas são agora apenas um aviso do grau de ebulição da crise e da inutilidade de o presidente tentar uma saída populista para seus problemas. Lula testou essa hipótese arriscada na semana passada. Falou que o país será obrigado a engoli-lo de novo e prometeu em palanque no Nordeste "mudar a economia e baixar juros". Ora, se fosse possível baixar juros por vontade pessoal e por decreto, ele já teria feito isso. Todo governante faria logo no primeiro dia de governo. Lula não acredita em mágicas na economia. É preocupante, portanto, que diga o contrário em palanque. Quando começa a falar coisas nas quais não acredita apenas para agradar à platéia, um político se diminui. Um presidente some. As pinceladas verde-amarelas nas ruas são um aviso, mas podem ser também uma via de mão dupla para Lula. Se ele interpretar corretamente os anseios das ruas, se salvará como o príncipe Calaf de Turandot. Caso não leia a mensagem verde-amarela é melhor mesmo deixar a vida levá-lo aonde ela decidir.
Embora Lula relute, a crise está entranhada em seu governo. Em momentos assim, o mínimo que se espera do governante é serenidade. Na semana passada, enquanto a crise subia a rampa do Planalto, Lula continuava seu giro, iniciado há vinte dias, pelo interior do Brasil. Foram oito discursos em apenas quatro dias. Ao defender a produção do biodiesel, Lula se comparou ao ex-presidente Getúlio Vargas, segundo ele "achincalhado" pela imprensa quando criou a Petrobras. Sugeriu que vai tentar a reeleição. Mas a vida pode estar conduzindo-o para outro lado. Todos os caminhos do escândalo revelados até o momento levam ao Palácio do Planalto. Em depoimento à Câmara na semana passada, o deputado Roberto Jefferson disse ter participado pessoalmente de uma reunião em que se discutiu com o ex-ministro José Dirceu uma estratégia para o PT e o PTB embolsarem 24 milhões de reais da multinacional Portugal Telecom. Onde foi a reunião? No Palácio do Planalto. Na mesma sessão, Jefferson falou de outro encontro entre ele, José Dirceu e a cúpula do PTB para tratar da indicação da diretoria de Furnas. O objetivo do PTB, segundo Jefferson, era arrecadar 4 milhões de reais da estatal para o caixa de seu partido. Onde foi a reunião? Na sala do presidente Lula. As duas acusações foram desmentidas pelo Palácio do Planalto. Ocorre que existem outros pontos de convergência. Na lista de sacadores das contas do publicitário Marcos Valério, que se imaginava servirem apenas para subornar deputados, apareceu o nome de Marcio Lacerda, secretário executivo do Ministério da Integração Nacional, comandado por Ciro Gomes. Lacerda, que consta na lista como beneficiário de 457.000 reais, pediu demissão. Para onde foi o dinheiro? Ele contou que foi usado para pagar os serviços da empresa New Trade, responsável pela redação das propagandas de Lula no segundo turno da eleição presidencial. Na lista de Valério também surgiu, como a maior beneficiária dos 55 milhões do caixa dois apurado até agora, a empresária Zilmar Fernandes da Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça, responsável pelo marketing da campanha do presidente Lula. Ela recebeu 15 milhões de reais. E para onde foi esse dinheiro? Duda Mendonça ainda não respondeu. Há duas semanas, quando apareceu a primeira transferência, no valor de 500.000 reais, o publicitário reuniu seus principais colaboradores no escritório de sua agência, em Brasília, e disse que ainda iriam aparecer muitos outros repasses a sua agência. Segundo ele, foi o pagamento pela campanha presidencial de 2002. "Eu trabalhei e recebi. De onde veio o dinheiro eu não sei. O problema é que nego é burro. Precisa roubar, pô? Eu não roubava quando era pobre. Não vai ser agora que eu sou rico que vou fazer isso", desabafou. Duda disse aos funcionários que tem notas fiscais atestando o serviço e que recolheu todos os impostos devidos. "Eu tô limpo. Nego que se vire para explicar." Resumindo a história: uma parte da campanha do presidente foi paga com dinheiro repassado por Marcos Valério, que, é bom lembrar, tem contas de publicidade em várias empresas do governo.
Ao contrário da versão
que os petistas tentaram montar – a de que os recursos repassados por Marcos
Valério eram oriundos de empréstimos que tinham o objetivo de sustentar as
campanhas municipais –, as investigações demonstram que o dinheiro, além de
bancar parte da própria campanha de Lula, era um grande e multifuncional
caixa do PT administrado pelo ex-tesoureiro Delúbio Soares, um assíduo
freqüentador do Palácio do Planalto. Na lista dos sacadores, apareceu o
escritório do ex-procurador da República Aristides Junqueira, que ficou
conhecido por atuar no processo contra o ex-presidente Fernando Collor. Os
advogados sacaram 545.000 reais, segundo eles, referentes a pagamento de
honorários pela defesa de petistas no caso de corrupção na prefeitura de
Santo André. À medida que a CPI avança, os caminhos do dinheiro apontam com
mais precisão para o Palácio do Planalto. "...E deixa a vida me levar / Vida
leva eu / E deixa a vida me levar..."
|